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Uma temporada em Burleigh Waters

10 de março de 2017

A gente já estava acostumado em morar na Deodar Dr. Pertinho da praia, perto da James St, longe do Coles e do ponto de ônibus. Já éramos quase locais. Só faltava ter três filhos e um cachorro. Tava quase bom. Porém, teríamos que sair da nossa homestay por uma semana porque alguém já tinha alugado a próxima semana meses atrás.

E fomos nós tentar achar um novo lar em dois dias. Fácil. AirBnB, lowest price, pronto. Bookamos uma unit que ficava em Burleigh também, quer dizer, Burleigh Waters.

O lugar não era ruim, aliás era até melhor. Era perto do Burleigh Point, colado na James, longe do Coles e do ponto de ônibus. Outra vantagem também era que a gente tava perto dos restaurantes que a gente mais gostava. Gostava de ver a comida e o pessoal comendo, pois na situação atual comer fora era pedir uma pizza na Domino’s.

Achamos a casa. Olhamos pela janela e a nossa anfitriã olhou de volta. A conversa prosseguiu por mais cinco minutos assim: a gente olhando pra ela e sorrindo e ela sorrindo e olhando pra gente.

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- Oi, a gente fez uma reserva pelo AirBnB, lembra? - Ué, mas o Fulano (vamos chamar ele de Carl, ou melhor, Carlos) não me avisou nada.

- Fiquem à vontade, o quarto de vocês é esse aqui. A chave é essa, mas eu vou comprar uma tranca nova amanhã porque o Carlos tá entrando aqui sem me avisar.

Caralho, que porra é essa?! O maluco entra na casa dela (vamos chamar ela de Neide) sem avisar.

- É porque ele aluga pra mim, mas ele não me pagou até hoje…

A Neide tinha uns 70 anos. O Carlos uns 25. Grave essa informação porque ela vai ser muito importante no final da história.

- Então, acho que o Carlos tá entrando no meu email, melhor eu desligar o computador né? Já liguei pra provedora de serviços e pedi pra mudar minha senha do banco. Você sabe tirar foto? Acho que vou na delegacia.

Peraí, email, senha, banco, foto, delegacia??? Uma coisa de cada vez Neide.

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A Neide era sangue bom. Era fã dos Broncos, time de rugby de Brisbane. Tinha vários posters dos jogadores espalhado pela casa. Tinha também umas fotos de lobo, umas corujas. Tudo bem empoeirado. Era vegetariana e, se ganhasse na loteria (jogava também) iria construir um santuário com vários animais.

Fiquei imaginando uma mistura feminina de Pablo Escobar com a arca de Noé nessa hora.

O problema da Neide era que ela tava meio desatualizada. Precisa de um update já fazia tempo, entretanto o sistema dela já não tinha mais memória há anos.

MTV

A cada dia que passava a gente tentava entender o que tava rolando e os personagens iam surgindo. Dessa vez era o Matt. Tinha morado lá antes da gente. Era amigo do Carlos. Veio de Uganda e ficaria lá sem pagar. A Neide até ajudou ele com alguma grana. A televisão gigante da sala da Neide era do Matt.

Porra, se o Matt não tinha nem onde cair morto, como ele comprou essa televisão? O cara nem casa tinha.

Era nosso último dia lá e finalmente conseguimos entender o que se passava. O Carlos alugava a casa da Neide e repassava uma fatia do bolo pra ela. O problema era que fatia do bolo da Neide tava muito pequena e a Neide tava ficando com fome.

Mas porque ele estaria fazendo isso com você? - perguntei.

- Acho que ele é apaixonado por mim.

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