100 Crowd

1 ano de Austrália

26 de agosto de 2016

Passou voando. E eu que pensei que ia chegar aqui, ficar 6 meses e voltar. Na verdade a ideia inicial era ficar 3 meses. Com 2 meses já to fluente, no outro mês eu curto a Austrália, pensei. Mas não é bem assim que a banda toca hehe.

Primeiro que o inglês australiano é foda de entender. Acostumado com o inglês americano então… Lembro quando estava desesperado pra arrumar meu primeiro emprego aqui e o francês da minha casa me passou o contato de um australiano. Ele perguntou meu nome e eu não conseguia entender. Isso porque eu cheguei na escolinha com inglês upper intermediate. Mas meu camarada, o ozzie não fala pau-sa-da-men-te e cla-ro igual sua professora de inglês não. É outra história.

O processo

Antes de vir pra cá o que me intrigava era a vida de caras como Amyr Klink, Thor Heyerdahl, a porra do DVD 180 graus sul que não saía da minha cabeça, o livro da Luciana Whitaker “11 anos no Alaska”, depois o vídeo e pra fechar o Tito Rosemberg. Porra eu tava com mais de trinta já, queria experimentar algo diferente, era agora ou nunca. O Tito é um cara que eu falava que tinha vivido mais de uma vida, umas três ou quatro pelo menos. O cara conhece mais de 80 países, já tinha vivido na França, lavou pratos, cantou na rua pra ganhar dinheiro, atravessou o Saara três vezes, morou na Califórnia e vários etceteras (uma entrevista dele aqui). Eu era apenas um desenvolvedor de software que gostava de ondas. Eu queria conhecer a Califórnia, mas ele falava que a Califa já tinha virado modinha. Porra, preciso viver!

O Hawaii

Finalmente ia conhecer as ilhas. Já tinha conhecido a América do Sul, ido pra América Central, África, mas Havaí meu amigo… Aquela natureza costarriquenha tava lá, tinha o sol de El Salvador também, não tão quente, mas suficiente pra esquentar o inverno havaiano, o clima layback do Rio sem a malandragem. Porra, aqui é bonito, organizado e seguro (pra quem mora no Rio o Hawaii é o céu). E a galera?! O primeiro dia de surf em Haleiwa o local meu deu parabéns pelo título mundial de surf (alô Medina!). Tem que ter algum defeito não é possível. Todo mundo sorri pra você nas ruas, dá bom dia, tava extasiado.

Passei alguns dias em Waikiki (que tive um dos melhores surfs da minha vida de longboard) e tava indo pra uma casa de uma família no North Shore.

O North Shore

O anfitrião, Mark, tinha saído de L.A pro North Shore há pouco tempo. Tinha comprado uma van pra no futuro transformar num Food Truck, ou fuditruque como diz meu amigo Maurin. Todo dia de manhã ele abria o Surfline e o Google Maps e me falava onde estaria bom. Até o caminho por onde eu deveria entrar ele me explicava. Me emprestou uma prancha dele, 5’6”, gordinha, borda verde, esse dia em Haleiwa finalmente consegui pegar uma dá série, lá de trás.

Mas o que essa porra toda tem a ver com a Austrália?

Então toda essa estadia, essa experiência havaiana que eu tive, eu queria poder ter aproveitado mais. Como? Falando inglês melhor. E esse foi um dos motivos também que me levou a vir pra terra dos cangurus.

Rio sexta-feira 13

Quando saí do Rio tava rolando uns ataques com faca no centro da cidade. Já não bastava a bandidagem, agora os malucos estavam esfaqueando as pessoas. Eu tinha medo de ser esfaqueado todo dia que voltava do trabalho. Sem falar no centro que tinha 3 bueiros abertos por metro quadrado. Porém, pra alguns o Rio de Janeiro continua lindo.

Finalmente, duas vidas

Malas prontas, Austrália! Austrália? Cadê a galera fazendo exercício? Nem todo mundo aqui é loiro de olho azul? Cadê as pessoas? Cheguei no inverno. Não tinha ninguém nas ruas em Perth. No outro dia queria conhecer a praia, o mais rápido possível. Foi aí que conheci Scarborough e comecei minha segunda vida, eu diria.

Se não tivesse vindo nunca teria estudado novamente. Mesmo sendo na maioria das vezes o mais velho da turma.

Se não tivesse vindo nunca saberia como é bom pintar uma casa. Não saberia também como é tomar um calote de um imigrante das Ilhas Maurício.

Nunca teria trabalhado como cozinheiro num restaurante mexicano. Mas também nunca teria que limpar o restaurante inteiro até meia-noite com um gerente falando pra eu ser mais rápido.

Nunca teria ido pro trabalho de bike ao som de Cone Crew. E chegado lá com minha chefe ouvindo Justin Bieber.

Nunca teria conhecido Trigg num domingo de sol. Nunca teria chegado em Trigg amarradão pra surfar e ter que voltar porque o vento em Perth é extremante forte e desagradável de 9 em 10 vezes.

Nunca teria feito uma mudança. E, no outro dia ter que descansar porque o trabalho é pesado.

Nunca teria experimentado uma cerveja diferente por semana. Nunca teria que pedir dinheiro emprestado para comprar cerveja porque meu tinha acabado.

Nunca teria dividido apartamento novamente. Nem nunca teria conhecido um italiano que falava “caralho” mais vezes que eu.

Nunca teria minha bicicleta roubada dentro do meu prédio. Mas também nunca teria uma bicicleta tão maneira como eu tive.

Nunca teria que separar o lixo comum do reciclável. E ter botado a lixeira do lado errado na calçada.

Nunca teria viajado de Perth até Gold Coast de carro. Nunca teria tanto apego pelo carro como eu tenho agora.

Nunca teria surfado Margaret River só com mais duas pessoas. Nem nunca teria ficado com o cú na mão surfando por causa da frequência dos tubarões brancos em WA.

Nunca teria a habilidade de armar uma barraca tão rápido. Também nunca teria passado frio de congelar em Denmark.

Nunca teria dirigido uma reta de mais de 2000km. Nem visto o céu mais estrelado do mundo na Nullarbor.

Nunca teria pescado um caranguejo azul gigantesco em Streaky Bay. Nunca teria comido um caranguejo azul gigantesco em Streaky Bay.

Nunca teria visto um pôr de sol verde, amarelo, azul, rosa e todas as outras cores possíveis em Cactus Beach. Mas também nunca teria rezado pra achar o caminho de volta de Cactus Beach sem luz e celular.

Nunca teria surfado Winkipop. Nunca teria sofrido pra passar a arrebentação em Winkipop.

Nunca teria acampado de graça na Austrália. Nunca teria visto um coroa tão gordo despido ao chegar no acampamento de graça na Austrália.

Nunca teria conhecido Sydney. Nunca saberia que Sydney é sujo, tem trânsito e gente pra caralho.

Nunca teria conhecido Byron Bay. Nunca teria acordado, tomado café, surfado e dormido por dias em Byron Bay.

Nunca teria visto um arco-íris completo na minha vida.

Nunca teria surfado Burleigh perfeito. Mesmo vendo os locais tirarem tubos e tubos de camarote e não conseguir sair de nenhum.

Nunca teria conhecido Gold Coast. E teria que recomeçar do zero pela terceira vez.

Nunca teria lavado pratos. Mas também nunca teria conhecido o chef mais sangue bom da Austrália.

Nunca teria conseguido um trabalho de TI, na Austrália, em Gold Coast. Nunca!

Nunca teria morado em casa novamente. Nunca teria que montar uma casa novamente.

NUNCA TERIA TIDO DUAS VIDAS.

Camile backwards
Uma temporada em Burleigh Waters
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