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A jornada na Nullarbor Plain

2 de março de 2016

A Nullarbor Plain é uma estrada reta com kilômetros infinitos. Ela começa em WA e vai até o comecinho de South Austrália. Antes de viajar já tinha lido sobre ela e tinha achado que nego tava exagerando quando falavam que era cansativa a viagem.

Saímos de Esperance com destino a estrada sem fim. No começo achei bem tranquilo. Só reta, tá de boa. Depois de 6 horas dirigindo, vendo cangurus mortos a cada kilômetro, carros abandonados e placa sugerindo descanso, a situação mudou. É foda, você fica ligado direto, mesmo sendo uma reta, você tem que ficar olhando o tempo todo para ver se tem canguru no teu caminho.

Ainda tem o lance da gasolina. Se você der mole fica sem combustível porque as cidades ficam a mais de 100 km de distância uma da outra.

***

Hora de abastacer, vamos parar nessa cidade, dar uma volta no centro e voltar pra estrada, pensamos. Quando chegamos na cidade, a única coisa que tinha era um posto de gasolina, um motel e um restaurante.

- Onde fica o centro? - Aqui. - Ok, onde tem uma rua pra gente conhecer a cidade? - A cidade é isso, essa é a única rua dela. E nós - se referindo a mais três pessoas que trabalhavam no restaurante - somos a população.

***

Oito horas de viagem e precisávamos parar pra dormir.

- Vamos parar aqui. - Onde é o camping? - É ali atrás. Vocês podem acampar naquela grama ali.

A grama que a moça tinha falado na verdade era um mato no meio do nada. Não tinha ninguém lá.

- Olhe pro chão antes de pisar. - Sorry? - É que pode ter algum bicho, mas não se preocupem.

***

Mais de dez horas dirigindo, a gente ainda tinha que comer antes de dormir, isto é, pegar as cadeiras, fogareiro, panela, comida, cozinhar, e ainda arrumar barraca.

Passada essas etapas e olhando constantemente pro chão pra evitar de morrer no deserto por uma mordida de cobra ultra venenosa, a recompensa foi o céu mais estrelado da minha vida. Tinha muita estrela, muita mesmo. Parecia que não tinha espaço entre uma e outra. Em volta das estrelas mais fortes, tinha milhares de estrelas menores. Quando a gente desligou a nossa lanterna de cabeça então, esse número dobrou.

***

Mais um dia inteiro de Nullarbor pela frente. Ih, tem um bicho ali na estrada. Vai devagar. Acho que é um canguru.

Chegando mais perto deu pra ver. Era uma porra de um gavião gigantesco. Uma bicada daquele bicho acho que arrancava minha cabeça.

***

Precisávamos descansar de novo. Paramos no posto.

- Dá pra ir até Ceduna? - perguntamos pro coroa do caixa. - Sim, são mais 75 km. Quarenta e cinco minutos vocês tão lá. - E essa Cactus Beach, é longe? - Não, vou desenhar um mapa pra vocês.

Já era umas 5:00 da tarde, pensamos se íamos ou não.

- São cinco horas, dá pra chegar lá ainda com sol? - São 7:30, vocês tem que acertar o relógio de vocês pro fuso do estado. Vocês tem mais meia hora de sol. Dá pra chegar sim.

Fomos. Depois de um kilômetro começou uma estradinha de chão. Mais longe um pouco e umas placas de cuidado, pista escorregadia começaram a aparecer. Dirige e dirige e nada de praia. Começa a escurecer. Mais estrada de chão. Dirige mais, só falta o carro quebrar aqui… Mais alguns mil metros e finalmente chegamos.

- A praia é ali? - perguntamos pruns surfistas que estavam deixando o lugar. - Sim.

Nunca tinha visto um pôr-do-sol daquele jeito. Tava meio verde. Parecia uma aurora boreal. Na esquerda ainda tinha uma onda solitária abrindo pros dois lados lentamente. A melhor onda da Austrália que eu nunca surfei.

Na hora de ir embora já tava escuro, isso porque a gente ficou olhando a praia por no máximo 5 minutos. E agora? Como que volta dessa porra. Rezando pra achar o caminho, contando os kilômetros pra verificar se estávamos perdidos ou não, pedindo ajuda pra todos os santos, fazendo promessa, finalmente chegamos no posto do coroa novamente.

Bora dormir. Tinhámos acordado as 8 da manhã e estavámos dirigindo o dia inteiro. Dormirmos aqui ou vamos pra Ceduna? Bora pra Ceduna, o coroa disse que podia dirigir a noite esse percurso porque não tinha canguru. Dois minutos na estrada passa um caminhão voado mais parecendo a árvore de natal da Lagoa de tanta luz chacoalhando todo nosso carro. Caralho, não dá não, tá perigosa essa estrada. Bora voltar.

No posto do coroa pela terceira vez:

- Onde tem um hotel aqui? - queríamos descansar. Montar barraca e cozinhar aquela hora já era missão impossível. - Tem aquele ali.

***

- Queríamos um quarto. - Acabamos de fechar. - Você conhece outro lugar? - Esse é o único hotel da cidade, vocês podem acampar ali na estrada ou dormir no carro.

Foda. Dormir sentado ia destruir a gente mais ainda.

- Bora tentar achar outro lugar. Tem que ter uma opção. - Tem um camping ali…

Entramos e estacionamos. Office fechado.

- Foda-se, vamos armar barraca nessa porra aqui mesmo, amanhã a gente fala com o dono.

***

Indo escovar o dente e:

- Tem alguma coisa ali na árvore mexendo. - Tô vendo.

Jogamos a lanterna e era o “cão raposa” da Austrália. Ele olhou pra gente (“rai maite”) e saiu. Bom, desde de que ele não entre na nossa barraca tá tranquilo.

Dormimos.

Esperance, mais uma cidade perfeita da Austrália
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